Onde está Raul Ru2X ???


Saudações terráqueos!

O meu nome é Artwoxis Blipovir do planeta Xovirus. Sou caixeiro-biajante de um labatório que se dedica à investigação e fabrico de patologias inovadoras que vendemos aos terrestres.
Na minha viagem inter-espacial tive um furo na minha nave pelo que fui obrigado a parar na ISS (International Space Station) e proxeder à reparaxão.



Enquanto esperava pela reparaxão, dirigi-me ao bar da ISS onde encontrei Sir RU2X que anda a investigar as potenxialidades da terapia em câmara hiperbólica no tratamento do birus da XIDA.
Pediu-me para bir ao bilogue dar nutixias dele, com uma password para XIDADANIA mas como nintendo nada destes sistemas néticos ancestrais foi-me difixile. Ele está bem e sente-se optimamente a flutuar no espaxo. Manda dizer que volta ao bilogue quando chegar uma prima chamada Vera.
Deu-me umas dicas para ir tentar vender umas doenxas inovadoras e tecnologicamente avanxadas ao Eng. Sockets.




Desculpem o mau prutuguês do testo mas é por causa do hacordo holografico.
Dei a nutixia . Esperamos que a prima Vera venha deprexa para ele voltair.


Curdiais blips.

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Por outros labirintos





Fora a estrela da companhia. Brilhara em tempos nos palcos de todo o mundo. Todos falavam dela, da sua performance. Era procurada pelos media pois falar dela disparava as vendas dos citadinos e as audiências televisivas.

A grande estrela SIDA deixou de o ser.

Foi exacerbado o sofrimento, as dezenas de comprimidos diários a tomar, as visitas constantes aos hospitais, os internamentos e todo um sofrer que deixava qualquer um a pensar. A morte e os medos.
Anos depois, surgem os cocktails terapêuticos. A cura não vem mas consegue-se estabilizar a doença e manter o vírus suprimido. Onde há acesso à medicação, já não se morre. Passa a morrer-se da pretensa cura e dos danos que os químicos poderosos para a supressão viral provocam no organismo.
Continua o estigma e o medo de contacto com seropositivos mas é revelado de maneira menos intensa quase imperceptível.
Aparecem novas doenças, peças que vão ao palco das preocupações da vida. Podem matar menos mas ganham o mesmo glamour de tragédia mundial, que é desejada para se vender tempo de antena com grandes audiências e papel de jornal.
Qual o papel da SIDA no futuro? Os activistas e pessoas preocupadas lembram que ela continua a existir, mas poucos se lembram dela.
As grandes farmacêuticas juntam-se na investigação de novos fármacos para VIH para pouparem recursos e manterem vivo o fluxo de entrada de dinheiros para uma doença sem cura. Outras abandonam a investigação na área da SIDA e dedicam-se a outras áreas mais promissoras.
Um blogue temático sobre a doença deixa de ter tópicos de interesse que alimentem textos regulares quer sejam informativos ou testemunhos de atropelos aos direitos dos infectados, torna-se difícil de gerir.

Aos leitores que lêem o Sidadania, fica a herança de pertencerem à história de um blog que nasceu com propósito de divulgação da pandemia e ajuda aos novos infectados
Existem outros sabores e temas que fazem parte do labirinto da vida. Afinal qual a importância de se carregar um vírus hediondo, quando na diferença se encontram semelhanças que mostram o quanto os seres são iguais, pertencentes a uma espécie que se reconhece a si mesma como imperfeita e que o vai continuar a ser.


Tenham medo, tenham muito medo...


A doença da moda hoje não é VIH. É SUINA, não de sigla mas de nome. Reconsideraram mudando para H1N1 para que não houvesse intenção de chamar suíno ou porco aos seus portadores o que criaria um estigma como aconteceu à malta da Sida quando esta foi apresentada ao mundo.
É anunciada como peste e algo temível. Nasce um medo do desconhecido na mente do povo e dos governantes.
Não vou divagar sobre o que todos já conhecem., nem falar do esquema de segurança, prevenção e combate à conhecida GRIPE A.
Vou falar da paranóia colectiva. Pode haver quem ache que não o é. É apenas a opinião de um cidadão distraído às vezes mas não desatento que acompanhou muito de perto como funcionam as coisas pelo serviço público de combate à gripe.
Até pensei em tom sarcástico, se as medidas de higiene como lavar as mãos, não serão um modo elegante de chamar porco ao povo, já que a peste é suína. A eterna mania ou não, de quem está preso à ex-doença da moda SIDA e conhece os seus estigmas e a discriminação.
A senhora Generala na guerra da gripe levou isto muito a sério. Os directores clínicos dos hospitais também mobilizando uma vasta equipa de serviços de saúde. Anuncia-se um alerta de mão pesada por crime de propagação de doença infecciosa a quem se deslocar aos hospitais.
Ao telefone na linha saúde 24: um inquérito de um enfermeiro, de seguida o contacto com um médico. Novo inquérito. Que contactos houve, estudam-se os riscos. Saem conselhos. Longa espera, horas que passam. A angústia por parte do doente. Todo um preparado de rotinas, o isolamento no quarto durante quatro dias. Era certa ou quase pelos sintomas. Retiram-se as crianças de casa, usa-se máscara e lixívia. Os soldados cumprem as ordens dadas.
Decorrem os quatro e a maldita não passa. O paciente já não consegue engolir e telefona a queixar-se. Conclusão: uma amigdalite feia que acabaria por passar com antibióticos.
Era, não era. Ninguém sabe. Não se fizeram testes. Não houve observação do doente. Há que poupar e não desperdiçar.

Assim foi resumidamente o meu contacto com a pandemia num familiar.
Na mesma casa pouco tempo depois, o meu pequeno neto de um ano adoece com febre alta e garganta inflamada.
Para um melhor direccionamento, claro, a linha Saúde. É inscrito depois do primeiro atendimento. Uma longa espera. Desliga-se, eles telefonarão de seguida. A mãe do bebé sai e fico encarregue de esperar pela chamada.

O telefone toca. É o senhor fulano (nome do bebé)? Estou a falar com o próprio? – Sem esperar pela resposta continua a voz do outro lado da linha – já estou a ver que sim.
Apeteceu-me responder dahh dahh, mã e dar uns gritinhos a simular o bebé.
Mas a missão a cumprir era dar o número do telefone da mãe do bebé-prodígio que fala e explica os seus problemas de saúde.
Acabou por ir a um centro de saúde, que por sua vez tinha recebido uma comunicação por fax do processo. O diagnóstico final: quatro dentinhos a sair e uma inflamação na garganta.

Tenha medo, tenha muito medo. É um sério candidato a cair nas malhas da paranóia colectiva e nacional da gripe A.
Moral da história. “O povo aprendeu a lavar as mãozinhas e a não mandar perdigotos para cima dos outros”

A longa pausa do guerreiro



Pausar é preciso. Começa-se um projecto de entre ajuda para seropositivos e escolhe-se o meio, neste caso um blog. Defende-se uma causa, luta-se por ela e tenta-se desmistificar a SIDA.
Comecei por me auto apelidar de “blogueiro sidoso”, desconhecendo o que é ser blogueiro, bloguista, blogger ou que lhe quiserem chamar. Escrevia e escrevo numa plataforma interessante desenvolvida neste maravilhoso meio de comunicação a que chamamos blogosfera.
Os anos passam. Começo a aprender a mecânica e a maneira de estar no mundo dos blogues. Reconheço o valor da blogosfera como um meio poderosíssimo desde que se saiba aproveitar e gerir.

Um dia vem a desilusão. Fazem-se amizades facilmente e é comum as pessoas abrirem-se a certos temas tabus o que normalmente não acontece fora do virtual. Tudo parece perfeito no virtual e no acreditar dessa perfeição, desenvolvem-se e aprofundam-se sentimentos. De repente como que varrido por um tsunami tudo desaparece e fica a ilusão do ser que na realidade não o era. Criam-se grupos de amigos, há encontros que passam a reais mas acontece que tudo é volátil ou quase tudo.

Bajulam-se génios que o não são e o vulgar ou mesmo sem valor é dito como divino, perfeito ou soberano. Sentem-se como estrelas num firmamento inexistente onde querem ser a mais brilhante. O efémero do estrelato, as luzes da ribalta onde cada um se pavoneia se for essa a sua intenção.
Importante, sim o importante é a procura de leitores que comentem. Tantos e tantos nem sequer lêem o que se escreve ou passam os olhos rapidamente na vertical, procurando uma frase que dê sentido a um comentário. Outros apenas elogiam o escrito sem o ler e outros (que considero mais honestos) apenas escrevem: “Passei para dizer olá e desejar um bom fim-de-semana”.
Definem o seu valor pelos comentários como se de votos se tratasse. Uma verdadeira campanha eleitoral ao rubro pelas ruas da blogosfera em que se entrega o panfleto com um comentáriozinho na esperança da recompensa sob a forma de visita que venha pôr na urna de voto mais um comentário para engrandecer o ego.


A desilusão cresce a cada momento, quando vejo que o que pensava ser nunca o foi.
Paro, olho à volta e penso se vale a pena continuar. Pausar é preciso. E depois? Depois virá o balanço final e a decisão de parar ou continuar. Olhar de novo, apagar desilusões, pegar na peneira e jogar ao vento a palha e o grão, que de entre toda a palha haverá algo delicioso a conservar. No fundo da peneira encontrei deliciosos grãos que são o meu alimento para a alma. É por esta maravilhosa colheita que continuarei aqui a escrever enquanto valer a pena.

Adoro-vos amigos que o são.




R.i.s.c.o.s



Incrustado na amizade e no convívio entre poetas, escritores e gente que se revela genial na arte de colocar o pensamento e a criação no papel, sinto-me pequeno face aos talentos com que me deparo a cada momento.
Gosto de escrever. Um dia alguém me chamou de escrito-dependente. Se estará certo, não sei. Sei que sou adicto ao libertar da mente e se tal é possível na escrita pois então que o seja. É um assumir sem certeza. Uma preguiça crónica no conjugar do físico com a mente, quando tantas vezes o primeiro não se dispõe a gravar no papel, o volátil que o segundo produz. Então perde-se a beleza e o momento. A inspiração que chega parte tão depressa como a carruagem do metro que abre as portas por um instante para no seguinte prosseguir a viagem desaparecendo no fundo do túnel, entre o rugir metálico das rodas nos carris.
Tomo os conselhos, cuido da escrita, acautelo as vírgulas que uso profusamente sem qualquer regra gramatical, agregadas à necessidade de respirar e ao colar do verbo escrito ao oral. Um acasalamento nem sempre em consonância.
Saem palavras nos lampejos de lucidez ou de loucura, numa indiferença em cada dos estágios que não se descobre. Elas projectam o pensamento, marcam, servem de guia a quem as seguir e imortalizam os seus autores.
Quando proferidas, passam. Quando escritas, gravam-se, manobram-se, moldam-se à maneira, tal as pinceladas do pintor ou suave martelar do cinzel do escultor. É verdade que a obra nasce quando se acredita.


De seguida pergunto-me: palavras para quê se uma imagem vale mil palavras? Mas ninguém diz que mil palavras podem ser o filme de uma vida, e não simplesmente uma imagem. O curioso é que até nem sei escrever. Que o atestem os funcionários das finanças na minha dificuldade em preencher formulários. E contudo, escrevo sobre escrita. Terei sido infectado por algum vírus desconhecido que escraviza as pessoas prendendo-as durante horas a uma cadeira e à tela do computador? Não tenciono fazer a prevenção para o VEC (vírus da escrita compulsiva) e este é facilmente transmissível. Não pretendo realizar qualquer teste para me saber infectado pelo VEC. Prefiro a dúvida ou a ignorância. A certeza da infecção é deixar de viver outra vida e escravizar-me à escrita. É o viver face aos seus escritos, às histórias que molda, às emoções que transmite.

E em jeito de “eu pecador me confesso” reconheço que tenho relacionamentos de risco com escritores, poetas, pessoas que escrevem maravilhosamente bem que não se revelam e artistas. Sem qualquer protecção, leio e aprecio as suas obras.

- Por favor doutor, diga-me se estou infectado e se estes sintomas do escrever muito são sinais do vírus?

- Tem de fazer o teste - responde-me, mantendo-me na incerteza atroz.

- Não, o teste não. Não quero. Prefiro sofrer na ignorância os sintomas e ficar preso à cadeira escrevendo durante horas e horas.

É que a sorte dá muito trabalho mas pode acontecer. Acreditar que o homem pode ser o maior sonho dele mesmo, pode fazer a diferença.

HITlerismo e VIHisterismo

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Janeiro de 1933

Uma politica anti-semita levou à criação planeada e programada de campos de concentração na Alemanha e na Polónia, onde os factos mencionam o assassínio de seis milhões de Judeus com o objectivo exterminar uma raça considerada "inferior" e sobrevivesse apenas a raça superior. Impressionante é que esta política tenha sido alimentada pelo cérebro de um louco de sangue judeu de nome Adolf Hitler, que se julgava encarregue de manter a pureza da raça ariana à qual ele não pertencia.


Julho de 2009

O Governo do Cambodja criou uma comunidade nos arredores da capital, Phnom Penh, que se tornou conhecida como «colónia para infectados com HIV». Recentemente, o executivo começou a deslocar as famílias afectadas pelo vírus que viviam na região de Borai Keila, para a colónia. Trata-se de um conjunto de barracas construídas com metal muito fino, tão fino que os ladrões «conseguem, com uma simples faca, abrir buracos nas paredes», afirmam os moradores.

«Juntar um grupo de pessoas infectadas, em habitações sem qualquer qualidade, longe dos seus postos de trabalho e longe dos cuidados médicos é inaceitável», afirmou à CNN Shiba Phurailatpam da «Network of People Living With HIV».


Os tempos mudaram, a civilização evoluiu, fizeram-se tratados dos Direitos Humanos, hoje defende-se a compreensão e a tolerância pela diferença. Será tudo fachada?
Os loucos sempre existiram. Os loucos nos governos também. A história moderna bem o mostra e é essencial as pessoas não se deixarem manipular pelos meios de comunicação social de massas.

É difícil entender como um governo que recebeu reconhecimento internacional pelo seu esforço na prevenção e tratamento de pessoas infectadas pelo VIH, possa de forma tão grosseira, passar a ignorar os direitos básicos das mesmas.
Esperemos que o governo do Cambodja reconsidere, acabando de uma vez por todas com estas aldeias de sidosos. E esperemos igualmente que os outros governos do mundo não adiram à mesma iniciativa, correndo-se o risco de brevemente nascerem as novas Sidapólis.



Trinta anos após a descoberta do vírus da SIDA, com os conhecimentos adquiridos sobre da doença e os seus meios de transmissão, não deixa de ser uma aberração a atitude do governo do Cambodja.

É necessário que a discriminação, a exclusão social e os receios sobre a doença não conduzam à desumanização nem a repetição de erros históricos como o estigma da estrela amarela. Acima de tudo, é necessário que um homem deixe de poder tornar-se o pesadelo do próprio Homem.
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Maria, nome de amor. Maria, nome de dor

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Maria é viúva e tem três filhos que cria com todo o amor. Vive numa pequena aldeia, num casebre circundado por um pedaço de terra que cultiva e de onde tira o sustento para ela e para os filhos. O marido morreu de SIDA deixando nela a marca do hediondo vírus.

O dia tinha sido pesado no campo. Fez o caldo de couves para os filhos e acendeu o forno na cozinha de pedra, iluminada por uma lâmpada ténue onde as crianças se debruçavam sobre a mesa tosca à espera de algo especial. Maria confeccionava a massa dos biscoitos que em breve iriam para o forno.

Amanhã é o dia da consulta. Tem de se levantar de madrugada para apanhar a carreira que a levará ao hospital onde é seguida e que fica muito longe.

Retirou os biscoitos do forno, escolheu os mais bonitos e colocou-os numa caixa que o Ti Zé da mercearia lhe tinha dado. Os queimados dava-os aos filhos que os devoravam com gosto, um mimo a que não estavam habituados.
Mais tarde deitou as crianças na única cama que existia, duas viradas para os pés, outra ao seu lado e adormeceu profundamente.

De madrugada tomou o banho na água que aqueceu ao borralho no caldeirão tripé. Vestiu o melhor vestido, que usava apenas nas ocasiões especiais ou quando ia à missa rezar pela alma do seu homem.
Bateu à janela da Ti Aida, a vizinha que ficaria a tomar conta das crianças e partiu seguindo por um beco pouco iluminado que a levava à estrada principal onde passaria a carreira.
Carregava cuidadosamente o presente para o senhor doutor, a caixa dos bolos embrulhada num imaculado pano branco. Davam-lhe a esperança de ser bem atendida e que ele curasse o seu mal. Precisava de se curar para trabalhar e cuidar dos inocentes que trouxera ao mundo.

Após uma longa espera chegou a sua vez de ser consultada. A primeira coisa que fez foi oferecer os bolos ao médico que, sem levantar os olhos e olhando para os papéis a mandou colocá-los sobre uma secretária no consultório. Mal lhe dirigindo a palavra, passou as receitas, marcou a data da próxima consulta e mandou-a ir à farmácia hospitalar buscar os medicamentos. Maria agradeceu a consulta, como se o médico lhe tivesse feito o maior favor do mundo e saiu.

É hora de almoço. O médico interrompe as consultas, pega na caixa dos bolos e dirige-se ao refeitório.
Colocou-os sobre a mesa e disse: “estão aqui uns bolos que me trouxe uma doente. Não gosto de comer coisas feitas por esta gente"

Maria é nome fruto da imaginação. A frase do médico é real.

Da atitude do médico retiram-se duas ilações:

A primeira, mais grave: “podem infectar-me com um bolo".

A segunda: "para mim não serve, comam vocês enfermeiras"

Simplesmente asqueroso...



(Neste testemunho foi pedido que não fossem revelados os nomes do médico e do hospital)

Guerra de um [outro] Mundo



É uma fortaleza autêntica onde se escondem todos os tesouros do mundo. Tem exércitos, polícia, fábricas, bibliotecas, sistema de esgotos, computador com upgrade automático e um governo não eleito que ninguém contesta e que trabalha para o bem da comunidade.
Não existem pobres nem ricos, todos têm o essencial e o excedente é distribuído por todos. Produzem-se bens e serviços que são importados ou exportados e transformados em riqueza.
Se alguém adoece, toda a comunidade se preocupa e tenta em conjunto resolver o problema para que a harmonia e o bem-estar se restabeleçam. Um paraíso num planeta que parece não existir.
Por vezes, uma destas fortalezas tem defeitos de organização que levam ao seu colapso e destruição. Os inimigos que vêm do exterior são combatidos eficazmente pelo sistema de defesa e vigilância e eliminados. Mas nem tudo é perfeito. Cometem-se excessos que levam ao enfraquecimento do sistema facilitando a intrusão de invasores cujo fim é destruir a comunidade. O governo prevendo estas falhas socorre-se da ajuda externa para a resolução do problema, embora nem sempre tenha sucesso.
Um dos maiores inimigos é um comando suicida altamente treinado que entra com passaportes falsos. O sistema de controlo e a polícia de fronteira conseguem detectá-lo e levam-no para o interior da fortaleza onde é sujeito a interrogatório em esquadras de alta segurança. É entregue ao corpo anti-motim para ser escoltado e expulso da comunidade. O problema começa quando os comandos invasores conseguem eliminar os guardas, vestem as suas fardas e disfarçados, corrompem os outros guardas da fortaleza. É o início da destruição de toda a comunidade. O governo prevendo a destruição da fortaleza pede socorro ao exterior. É importado material bélico sofisticado mas a solução é uma guerra sem fim à vista, em que o inimigo não desiste e por mais poderosas que sejam as armas, por mais baixas que produzam no inimigo, este nunca é totalmente destruído.


Esta fortaleza de corpo humano cujo governo é o cérebro, as esquadras de alta segurança, os gânglios e a polícia as células Langerhans debate-se longamente com o comando suicida VIH.


E este texto é apenas um pequeno ensaio do que seria um simples conto infantil para que as crianças compreendam, na tenra idade, como a SIDA acontece. Num tempo em que os contos de fadas foram substituídos por super heróis, soldados e guerreiros inter-galácticos, aqui encontra-se a matéria prima ideal para uma história de combate e luta que ao contrário de tantas outras que vemos na televisão e nos livros, deixa um ensinamento para a vida.


Como bolas de Sabão...


São códigos binários viajando à velocidade da luz. Um complexo entender de pares, uma diferenciação de géneros, o sim ou não, o positivo ou o negativo. As portas abrem ou fecham automaticamente para permitir ou negar a passagem do invisível que os olhos não conseguem captar.
Uma corrida louca que acaba na meta, aparentemente ao mesmo tempo que começa, na impossibilidade do relógio medir o tempo consumido na viagem.

Em tela apresentam-se os resultados, agora visíveis aos olhos. Revela-se o desconhecido, há o deslumbramento e o eleger de ídolos. Formam-se amizades e laços afectivos. Sem passado, sem diferenças sociais, étnicas, culturais, etárias ou religiosas.
É o virtuosismo do virtual. É a perfeição gerada na imperfeição do elemento físico que tantas vezes rejeita o mau visível em detrimento do bom oculto.

Florescem em deserto regado pelas chuvas sazonais com todo o seu esplendor e logo murcham e desaparecem com o estio, salvo algumas que teimam em resistir às agruras do tempo real, criando raízes profundas que as mantêm vivas e de onde vão sugando os elementos essenciais à vida e à sua continuidade.

Amizades que nascem na tela do computador. Os pontos de encontro e os conhecimentos são muitos, dividem-se pelos mais diversos temas e gostos. Registam-se em palavras escritas o enaltecer de qualidades de tal forma que se constrói uma visão aos olhos de quem lê, de um ser desejável num mundo tão ferido pelo desamor dos homens. É o bajular de uma existência medíocre, para um sentir efémero. É palco de estrelas feitas de papel esvoaçando no firmamento das chamas do inferno da vida. É o ego individual em crescente, que incha e onde o sentir de que o paraíso desceu à terra se manifesta.
Como bolas de sabão soltas ao vento, todo o esplendor e beleza flutuam durando o momento em que o equilíbrio dos elementos químicos se mantém.

De um momento para o outro rebentam permanecendo a nódoa em superfície imaculada como prova da sua breve existência. Como marca traduzida em desilusão e sofrimento. Ou como lição que se aprende mas que tantas e tantas vezes insistimos repetir como autênticos masoquistas na procura de um sofrer desnecessário. Valem sempre os bons momentos e as recordações. Mas valem sobretudo as raras excepções, que ano após ano se intensificam e que passam à esfera real.


Vale a pena? Responde-se pela mão do poeta que afirmou que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Com esponja húmida apago desilusões do passado, vivo o momento presente, sigo a caminhada e sei que na imensa amálgama de trigo e de joio sempre encontro uns grãos deliciosos que me consolam a alma e dão sentido à vida.

Rastreio do VIH a menores

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Foi deveras importante a abordagem no post anterior sobre os testes ao VIH a menores de idade. A preocupação e a consciência cívica dos nossos leitores revelaram-se em diferentes pontos de vista, todos eles válidos merecendo de facto uma atenção e meditação sobre o assunto.

Teve tanto impacto, que até em Árabe alguém quis chamar a nossa atenção para outras causas também elas importantes e que nos chocam, mas que não se enquadram na nossa luta focalizada na prevenção e redução de riscos relativos à disseminação do VIH.

Seria injusto aqui reproduzir partes de alguns comentários e deixar outros de fora tal a importância que cada um tem e a visão de cada um dos nossos comentadores.

Pessoalmente, sou a favor do despiste ao HIV a todas as pessoas desde que iniciam a sua vida sexual até à idade de avozinhos, em que pensar que aquele respeitável ser humano de cabelos brancos não possa ter relações sexuais é na realidade um absurdo.

Tendo como ponto focal os mais jovens e a importância do rastreio a partir dos 14 anos deixo algumas reflexões para apreciação dos nossos leitores. Fique claro que não sou a favor da obrigatoriedade de testes seja qual for a idade. Devem sim ser feitos em consciência e por desejo expresso, pese a importância das campanhas de sensibilização que desmistifiquem o estigma que marcou esta doença e a sua contribuição para a mudança de mentalidades sobre a problemática do VIH.

Durante seis anos após o inicio da vida sexual, quantos parceiros diferentes poderá ter cada jovem? Consideremos apenas um parceiro diferente por ano. Este pressuposto basta para fazer pensar os nossos leitores.

Num estudo efectuado pela Drª K.E. Safire e publicado na revista cientifica “Continuing Medical Education”, a mesma afirma: “Se você tiver um parceiro por ano durante 6 anos, e assim também todos os seus parceiros, virtualmente você terá tido contacto sexual com 45 mil pessoas”.

Longe de querer fazer comparações com a vizinha Espanha, a verdade é que há 15 anos, face à galopante progressão do VIH entre adolescentes o ministério da saúde espanhol lançou uma intensa campanha de despistagem e prevenção denominada “Conoce la nueva cara del VIH”, que deu frutos.


E por cá:
Passados 15 anos, neste jardim à beira-mar plantado, constata-se mais uma vez a derrota da saúde pública pelo tacanho e medieval moralismo lusitano, com influência ao mais alto nível do Poder, em pleno séc. XXI.”

Creio ser importante pensar no assunto e termos todos a nossa opinião formada tendo em conta acima de tudo aquilo que é melhor para os nossos jovens. O VIHlão não tem preconceitos nem se importa com a idade das vítimas. Ataca e deixa nelas a sua marca indelével todos os dias, pelo resto da vida.


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O BOM, O MAU E O VIHLÃO



Uma notícia recente sobre o rastreio do VIH nas escolas a menores sem que fosse necessária a autorização dos pais provocou um abalo, quase terramoto entre os ministérios da saúde e da educação. Entrou a Ética. Começou o cabo dos trabalhos.
De súbito, tudo em banho-maria. Calaram-se, desistiram nem sei de quê e deixou de ser notícia.

A comunidade científica reconhece as vantagens de um diagnóstico precoce da infecção ao VIH e o seu impacto na saúde do doente no futuro.
Aqui entra o BOM. Para além de bom para a saúde de jovens infectados é algo que de tanto importante é necessário.

O MAU aparece por os decisores políticos não se entenderem e não compreenderem a necessidade de uma medida deste género.
O menor não é legalmente senhor da sua saúde diz a ética e a lei. Quem decide são os pais.
O curioso é que perante esta situação levanta-se outra muito mais importante e que questiona: - Quem são os responsáveis pela doença dos menores? Porque não lhes dar o direito de prevenirem a sua saúde futura?
Admito que uma medida excepcional fosse aplicada à lei concedendo aos menores esse privilégio. Seria uma medida de prevenção muito útil.
Uma sensibilização aos pais seria igualmente urgente e necessária.

No campo do sonho, caminho na recordação de heróis do nosso rico passado histórico e tento encontrá-lo na democracia como o salvador da pátria.
É que tomar uma decisão neste sentido é um acto de coragem e um quase suicídio político, com muitos amargos de boca.
O raio dos votos fazem tremer muitos e é possivelmente aí que a democracia falha.
O fascínio do poder, face ao medo de o perder impede acções necessárias.

O VIHLÃO, como não podia deixar de ser é sempre o VIH e enquanto as mentalidades não mudarem ele continuará a proliferar e a destruir vidas.


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Pensamentos Altos


Durante anos aconteceu-me constantemente ter pensamentos “sonoros” e embaraçava-me perante o riso das pessoas ou quando me chamavam a atenção por estar a falar sozinho.
Os problemas, os sonhos e os diálogos eram vividos em monólogo com alguém imaginário ou real, por vezes tão intensamente que conseguia ver os ambientes e lugares em que se desenrolavam. Confesso que não apreciava nada ser apanhado em flagrante pelo que organizei uma estratégia de defesa em que atabalhoadamente começava a cantar para disfarçar esta característica. A maior frustração até nem era o que os outros pudessem pensar, mas sim o facto de cortarem a minha vivência em algo que era tantas vezes agradável.


Penso ter perdido um pouco esta capacidade de pensar falando. Ou porque a transferi para a escrita ou porque desenvolvi um mecanismo de defesa para não me sentir ridículo. É pena. Estou a pensar em começar a treinar de novo. Parece ser a nova moda com o desenvolvimento da tecnologia que permite pelo menos disfarçar o embaraço: hoje encontram-se nas ruas pessoas a falar sozinhas ou a dançar sem música e ninguém lhes chama malucos. São os efeitos de uma governação que de tão desastrosa põe toda a gente a exteriorizar para quem quiser ouvir os seus sentires. O livre-trânsito ou licença para a prática desta actividade sem o riso de terceiros resume-se a usar um par de auriculares ligados a um telemóvel, Ipod ou leitor de MP3 e toda a gente acha normalíssimo.

A minha próxima aquisição será assim o gravador digital com várias funções. A inspiração surge tantas vezes em momentos inesperados em que a falta de caneta e papel para registar pensamentos faz com que se dissipem. Regozijem-se agora os que falam sozinhos. A liberdade de sermos nós chegou. Com um auricular à vista, ninguém cai no ridículo.

Parvoíces de um escritor


Porque escrevo e porque escrevo essencialmente sobre SIDA? Comecei a escrever num site dedicado exclusivamente a esta problemática e que era frequentado por inúmeros seropositivos que ali retratavam as suas dores conforme cada um as sentia. Por vezes saíam as minhas próprias dores para o texto e ao mesmo tempo existia a necessidade sentida de ajudar aqueles que estavam mais em baixo quando o desespero lhes assolava nas mentes.

Com o advento do “Sidadania” este propósito manteve-se e continua bem vivo mas a ajuda, a maior parte das vezes está na troca de emails daqueles que se nos dirigem e com os quais por vezes nos encontramos e falamos. É missão, é partilha entre iguais, é o passar de conhecimentos sobre a doença, é o desmistificar dos medos e trazê-los de novo à vida. É o combate ao estigma e o preenchimento de uma lacuna alimentada pelos medos em relação à doença.

Ironicamente aconteceu que a grande maioria dos nossos leitores não se encontra infectada pelo HIV. Muitos nem têm parentes ou pessoas próximas infectadas. Mas começaram a entender melhor a doença e muitos deles aproximaram-se de pessoas infectadas. Nalguns casos, desenvolveram-se paixões entre seres discordantes à infecção, algo impensável antes de absorverem a informação aqui deixada.
A escrita quando praticada regularmente torna-se num vicio. Tornei-me num escrito-dependente, sem dar por isso. Adicto por natureza não me importo com esta condição em que somo mais um vício do qual não me quero ver livre em contradição a outros que quero deixar.

Não tendo um estilo literário definido, procuro encontrar em autores diversos uma amálgama que defina o estilo através do qual me venha a definir.
Considero o espaço dos blogues o lugar ideal para curtos ensaios de estilos, como se fosse um viveiro de escritores e onde tantos e tantos valores da nossa literatura se revelam.

Finalmente tornei-me num blogueiro. Um blogueiro sidoso, que importa? É a minha condição revelada. A doença é parte integrante da minha vida e dos meus sentires. E porque essa mesma vida pulsa em mim e existe para além da SIDA, escreverei sobre sentires e olhares para o mundo em que vivo sem que os escritos tenham obrigatoriamente que se relacionar com a doença embora aqui e ali se revele essa condição. Sem outra pretensão que não seja a de matar o vício da escrita, vou escrevendo.

Espero que gostem desta alquimia de um “escrevedor” a quem falta coragem para publicar muitos dos textos sobre sentires e olhares da vihda, arrumados num baú.

Beijos e abraços
.

Férias: 2º "round". The end.



No concilio de bruxos, feiticeiras, e magos ficou decidido e lavrado em acta transformarem o Gato Borralheiro em príncipe por uns dias.
A fada madrinha e os seus ajudantes organizaram os meios. O gato borralheiro iria viajar pelo reino por palácios e castelos até encontrar a princesa.
Transformado em príncipe, a caravana fez de coche com muitos cavalos reais escondidos dentro de algo a que nos tempos modernos chamam motor.

No dia da partida, a fada madrinha advertiu: No dia Xis, antes que no relógio na torre soem as doze badaladas do meio-dia todo o encanto desaparecerá. A caravana virará abóbora, os cavalos em ratos e tu virarás de novo o sidoso em desespero no borralho junto à cozinha onde vives.

Viajou pelo reino visitando castelos e palácios onde foi recebido com pompa e circunstância.
As princesas iam aparecendo e desaparecendo mas o príncipe não parava. Estava em viagem e sempre em contacto com o povo. Viu as coutadas do reino agora suas e viu sofrimento nos velhos. Viu guerras de senhores sem significado. Viu gente boa e gente má. Viu a luta de muitos pela sobrevivência e a luta de alguns por prestígio e bens materiais.
Os dias foram passando e não encontrava a paz que procurava. Nem tão pouco a princesa.

A data do fim do encanto aproximava-se quando vislumbrou um palácio na montanha. Tomou a estrada nessa direcção. Viu a princesa a sorrir. O príncipe encontrou a paz e a felicidade. Entre momentos em que a sua mente divagava nas lutas e problemas do reino, encontrara o que buscava. Num êxtase inexplicável, o tempo foi passando e tudo se mostrava perfeito até o relógio da torre bater a primeira das doze badaladas do meio dia. O príncipe recordou as palavras da fada madrinha.
Correu para o coche, deixou o sapato para trás em forma de essência e os cavalos fugiram do palácio a toda a velocidade. Já ia longe quando bateu a última badalada e tudo voltou a ser como dantes.



A princesa deixou de sorrir. O rei vendo a sua tristeza enviou arautos pelo reino à procura de uma essência única igual à que o príncipe deixou cair. Encontrou-a numa flor que seca mantendo a essência que ficou perpetuada para a eternidade.

A interpretação da história fica em suspense ou pode ser ligada à que conhecem da infância.
As férias acabaram. Tudo se resume a tão pouco : gostei

Férias: 1º "round"



Dia de Santo [De]voto. Um break nas férias de sonho, já com três dias de estrada e com tanto para contar.

Contudo, já estava programado antes do milagre férias ter acontecido um congresso Internacional em Lisboa ontem e hoje o cumprimento do dever cívico de votar, para não engrossar a lista da abstenção que adivinho ganhará as europeias por larga maioria.
Gosto de votar assim como gosto de preencher o euro-milhões. Talvez seja o fascínio das cruzes na esperança de encontrar a chave certa para a resolução dos nossos problemas. Não sei o que é mais difícil: encontrar governantes que resolvam os problemas do país ou acertar em cheio na chave dos milhões.

Saído de Aveiro, planeei dormir a primeira noite nos parques circundantes de Fátima e aproveitar as serras de Aire e Candeeiros para no dia seguinte passar por uma amiga que vive na zona, tendo-lhe dito que ia aparecer bem cedo à hora do pequeno-almoço e aproveitar o dia ao máximo.

Nove horas da manhã de sexta-feira. Encontrava-me perto do local de encontro, ansioso por converter uma amiga virtual em real. Nove e meia. Entro na caravana, o GPS com destino programado, virar à esquerda na primeira, rotunda a cem metros, na segunda saída… Duzentos metros para o seu destino. As imagens do Google earth tornavam o local familiar: é aqui… Uma buzinadela anunciando a minha chegada, uma porta a abrir-se e fui recebido de braços abertos, o primeiro abraço e apenas uma palavra: Existes.

Entrámos. Na cozinha encontrava-se um moço atarefado vestido de “Chief”. Fomos apresentados e foi-me pedido que escolhesse a ementa do almoço. O dia fora reservado para conversar comigo pelo que contratara um cozinheiro especializado canadiano para confeccionar o almoço. Pedi bacalhau assado, batata e salada, frisei comida saudável sem molho e gordura. Para sobremesa, algo doce à sua escolha, era livre de desenvolver a sua criatividade. O dia passou a correr, o almoço estava maravilhoso e a criatividade do cozinheiro superou as minhas expectativas. A hora da despedida chegou e de novo o rumo para a estrada. Ficou a promessa de voltar antes do final das férias. Se as coisas continuarem a correr da mesma forma acabarão por se eternizar.

Com a casa de férias estacionada por baixo da varanda, tratei de me apetrechar com alguns acessórios como os potentes binóculos para me transportar aos horizontes avistados das montanhas e a máquina fotográfica profissional para captar momentos mágicos.




Irei dando noticias dos momentos mais pitorescos desta minha volta a Portugal, agora rumo ao Sul para uma pescaria combinada em Tavira antes de começar a subir de novo para norte, pelo interior.
Sem rumo ou destino marcados, sem horários estabelecidos é a sensação de liberdade total.
Até ao próximo break!


Férias

São desejadas por todos. Com mais ou menos possibilidades leva-se o ano a planear, a escolher locais paradisíacos, a procurar viagens low cost, hotéis mais baratos e estuda-se um crédito para se ter o dinheiro que tantas vezes se torna no pesadelo pós -férias.

Este ano também faço férias, algo que não sei o que é há muitos anos. No princípio ri de mim próprio, fazer férias sem dinheiro é algo que me parece impossível. A necessidade de estar só, precisar de tempo para repensar a vida aguçou o engenho e a ideia não me saía da cabeça.

Estou em Aveiro a resolver uns assuntos e nas minhas andanças surgiu uma luz ao fundo do túnel que poderá fazer a diferença.
De visita a um primo, vi na garagem uma auto caravana. Lamentou-se que não a usava, que a tinha reparado recentemente na esperança de a vender mas que não lhe davam o real valor e que ia apodrecer ali o que era uma pena. Deu-se um clique na minha mente. Timidamente disse-lhe que queria fazer umas férias e seria fantástico para mim se a pudesse alugar por um preço cómodo.
-Ora essa… – disse-me - levas a caravana, que até é bom que ela circule e não pagas nada. E as condições proporcionaram-se. Verifiquei a caravana, duas baterias com um conversor que fazem trabalhar o pequeno frigorífico, uma tomada para o computador portátil, uma pequena casa de banho com duche, cama de casal e um beliche, armários, um pequeno fogão a gás, uma televisão. Tudo num pequeno espaço totalmente aproveitado.
De um momento para o outro virei caracol, com a casa às costas. O gasóleo será a maior despesa e só teria de evitar as auto estradas devido ao preço das portagens.
Uns telefonemas a uns amigos espalhados pelo país e enquanto houver carcanhol para combustível aqui vou eu. O objectivo de umas férias de sonho foi conseguido.
Espero ter internet no portátil através de hotspots wireless para além da connect box.

Vou de férias com a SIDA às costas. Ou a Sida é que vai de férias, tanto faz.
Certamente cruzar-me-ei com outras gentes, também seropositivos, que poderão estar de férias ou não, mas como a SIDA não tem rosto não os reconhecerei.
Mas sabemos todos que a época das férias é mais propícia à disseminação da pandemia. À cautela levarei na bagagem um bom stock de preservativos. Nunca se sabe…. Poderão fazer falta a alguém e eu terei muito gosto em os distribuir.

No lugar do(s) Outro(s)




A notícia. O impacto. O choque. O sofrimento. Sentimentos comuns não apenas ao que se descobre portador de uma doença grave com consequências na sua vida, mas também aos que o rodeiam, desde o conjugue, parceiro, pais, irmãos até à restante família, sendo que o impacto é diferente consoante o grau de proximidade para com o doente.

Não há dúvida que apenas quem passa pela experiência de se saber gravemente doente sabe o turbilhão de sentidos que o habitam. Mas não há igualmente dúvida que apenas quem acompanha de perto o seu companheiro, filho ou irmão quando este se encontra doente, sabe da dor que o angustia naqueles instantes, uma dor que não encontra alívio em nenhum analgésico, por não ser física mas que deixa igualmente sequelas ou um trauma para o resto da vida. A sensação de impotência para mudar a situação é trágica para o ser humano que nunca está realmente preparado para uma notícia abrupta em que o primeiro pensamento que ocorre é a morte. Torna-se um escravo de um terror de algo desconhecido que ainda não absorveu lucidamente. No caso da Sida, ocorre ao pensamento a hipótese de infecção, da conjugue ou companheira/o, dependendo do tempo que tenha ocorrido, mil e uma questões para as quais não se encontram respostas no ambiente inicial de descarga de uma notícia brutal: “tenho sida”.
São sentimentos impossíveis de descrever, que passam de modo diferente em cada um. São mundos que desabam, portas que se fecham, raivas que se soltam. A SIDA é em todos os aspectos uma doença que marca os familiares das pessoas infectadas.
Uns aceitam, outros rejeitam e ainda há os que dizem aceitar mas que de uma maneira ou de outra fazem a cobrança e passam a vida a apontar o dedo, como se de um crime se tratasse, com pena perpétua.

Com os conhecimentos e os progressos de hoje, desmistificados os receios e dissipado o fantasma da morte, a vida pode retomar a normalidade desde que exista a tolerância e o perdão. As cicatrizes ficam, as histórias têm desfechos diferentes, nem sempre felizes.


Joana (nome fictício) foi rejeitada pelos pais, pessoas de posses financeiras que a expulsaram de casa. O seu passado de tóxico-dependência pesou na decisão e voltou às ruas sem qualquer apoio dos familiares. Recusou os tratamentos e desistiu de viver. No dia da sua morte a família apareceu como se pudesse remediar algo.


Maria viu o seu filho ficar infectado, dedicou-se a ele de corpo e alma mas a doença associada ao consumo de droga levou-o à morte. Conserva o quarto do filho e todos os pertences como que a perpetuar a sua vida. Encontro-a frequentemente junto ao gavetão onde estão os seus restos mortais, vestida de negro como se ele tivesse morrido ontem.

A SIDA pode ser mais cruel, para os que a sentem nos seus entes queridos do que no próprio infectado.


As verdades [que] são para ser ditas







- Já tenho medo de te contar certas coisas... mas enfim!

- Não receies. Mantenho o teu nome e o do hospital no anonimato. É importante a informação que vais dando.

- Eu sei que sim. Mas sinto-me mal. Devia ter denunciado, especialmente por lidar com isto de tão perto. Não é fácil, preciso de manter o meu posto de trabalho.

- Sim, isso é de extrema importância

-
No hospital onde trabalho não existe qualquer terapêutica retroviral. Sei disto porque temos um doente que era medicado e não trouxe terapêutica de casa e desde o dia 6 que não a toma porque não há...

- E já lá vão quinze dias sem tratamento para o HIV…

-Uma unidade local de saúde é um centro hospitalar formado por centros de saúde do distrito e respectivo hospital central. O que quer dizer que aqui devia ser o cerne dos tratamentos e recursos, onde a população do distrito pode recorrer para toda e qualquer situação.

-Incluindo tratar doentes infectados pelo HIV como é óbvio

- Existe a farmácia do hospital, claro. Existe um infectologista e consultas mas unidade de infectologia não. Os doentes com HIV são internados no isolamento do serviço de medicina interna e não existe terapêutica retroviral na farmácia do hospital.

- Custa-me ouvir que os doentes infectados com o HIV vão para o isolamento pois a infecção pelo HIV tem meios específicos de se transmitir e o vírus não se espalha pelo ar nem pelos perdigotos de um espirro.

- Penso que neste distrito não existe um plano organizado de acompanhamento a seropositivos. Se o doente está a desenvolver um sarcoma de Kaposi, é porque algo não está a ser feito correctamente. Para variar nem sequer tem análises de carga viral ou contagens das cd4, embora seja assistido por um infeciologista.

- O Sarcoma de Kaposi , um tipo de cancro que afecta a pele e provoca lesões em órgãos internos, é comum em pessoas em pleno estado de SIDA e sem defesas do sistema imunitário. Como é possível um especialista médico não o saber e deste modo pedir de imediato a carga viral e a contagem de células CD4?





Este é o panorama actualmente em Portugal nos hospitais fora dos grandes centros urbanos.
Muitos seropositivos têm de se deslocar centenas de quilómetros para uma consulta de especialidade e abastecimento de medicamentos para o HIV, ou porque têm medo que o seu estado clínico seja revelado ou porque as unidades hospitalares não têm condições para os seguirem.
É preocupante esta situação e constatarmos que a prestação de cuidados de saúde a doentes infectados pelo HIV não é igual em todo o país.
A colocação de pessoas com HIV no isolamento lembra os tempos em que a SIDA apareceu e era desconhecida. Pensamos nós que as coisas estão a mudar…